domingo, 30 de novembro de 2008

Marta Carreiras - "A verdadeira história da Tomada do Carvalhal"

Plano geral do espaço cénico.
Fotografia @ Marta Carreiras

O trabalho da Marta Carreiras em A verdadeira história da Tomada do Carvalhal sintetiza de uma forma feliz a imprescindibilidade da sua colaboração. É que o seu engajamento reside sempre no eixo do sentido da teatralidade, não se quedando pelo domínio das artes, disciplinas ou práticas da área da sua responsabilidade (espaço cénico, figurinos, adereços). Ela não sectoriza, não cria gabinetes, nem tão-pouco muros: é tudo teatro. O que se passa nos bastidores, na cena e no público. Por isso, jamais me deparei com alguém somente satisfeito com o resultado final da sua participação, quando, apesar disso, o espectáculo possa continuar com debilidades. É vê-la preocupada, se a coisa estiver assim.
Quer isto dizer que a Marta Carreiras alia às exigentes experiências profissionais e artísticas já tidas (predominantemente no Teatro Meridional, mas também noutros projectos e companhias), o seu bom gosto – que é sempre discutível, claro, mas ainda assim, na minha opinião, bom gosto, pela inteligência, pela contenção, pelo background cultural que foi desenvolvendo e, por fim, pela observação lúcida. Nesta fase do seu percurso, investiga aquilo que podemos chamar de enclave entre o espaço da dramaturgia e da encenação com o da criação do espaço. Como criadora, ela não se dissocia do que acontece nos ensaios e nunca projecta ideias muito desenvolvidas a priori, pois entende que o corpo-em-acção de um actor pode já estar a sugerir (senão mesmo, construir) um universo e está mais interessada neste potencial do que propriamente com o facto do seu trabalho poder não se visto. Também a possibilidade de transformação sígnica de um mesmo objecto a move, no sentido da teatralidade, muito mais do que trazer à luz muitos adereços. Como é que um pode ser simultaneamente muitos e o que é concreto tornar-se também abstracto.

Pormenor da saia da Tia Rita (Maria de Vasconcelos).
Fotografia @ Marta Carreiras

Tive obviamente outros contactos com alguns cenógrafos, figurinistas e aderecistas, mas tem sido frequente sentir-lhes pouca adaptação às vicissitudes da descoberta, do trabalho-em-progresso. Na minha óptica, o erro mais frequente é não se tornarem íntimos com o que está a acontecer "agora" nos ensaios. Mesmo que inconscientemente acabam por funcionar - uns mais do que outros e salvaguardando outras excepções, claro - numa lógica de "encomenda" ou, se se preferir, com demasiadas condições apriorísticas. O facto de terem que desenvolver as suas propostas noutros espaços que não a cena (ou em horas diferentes às dos ensaios) acaba, necessariamente, por desligá-los um pouco mais da corrente. Pelo menos, nesta forma que tenho de idealizar uma criação, naquilo que denomino de "dramaturgia do ver", isto é assim.
A Marta, pelo contrário,
faz-se imediatamente cúmplice não só da encenação mas dos seus impulsos mais nevrálgicos. Ela sabe isso porque trabalha com o teatro dentro de si, na alma e no coração. E é em cima disto que projecta a sua intervenção. Fica sem alegria quando alguma cena não funciona e transborda de satisfação quando o trabalho, segundo ela, prestigia os deuses. Em tudo o que se envolve fá-lo com um motivador sentido positivo, e percebe muitíssimo bem essa coisa do dar… quando dar e receber são serenos e um só.















Pormenores do espaço cénico.
Fotografias @ Marta Carreiras

Em A verdadeira história da Tomada do Carvalhal trabalhou com um orçamento microscópico. Por isso, encontrou materiais na rua, na casa de alguém, no próprio lixo. Outros pôde ainda reciclar. Relativamente aos actores, pediu-lhes que indicassem o que gostavam ou não nos seus fatos e indumentária, tomando o gosto e o conforto deles como ponto de partida, mas sem que isso representasse qualquer diplomacia de cedência, descaracterizando o sentido artístico. Apenas para que essa totalidade com a representação pudesse fluir. Quem confia numa integridade e unidade estética, porque parte de uma essência e não apenas da forma, não tem qualquer prurido em "abrir" o trabalho a outras formas de sentir, escutar e, inclusive, se for caso disso, flexibilizar.
Para terminar, falta só dizer que neste difícil processo de trabalho de A verdadeira história da Tomada do Carvalhal, a Marta envolveu-se com o desenho de luz, investigou na Serra da Gardunha (no
Souto da Casa) com os actores, tocou bombo nos ensaios de música, aprendeu as canções, adaptou-se a toda e qualquer dificuldade sem nunca se preocupar se isso pudesse embaciar o seu trabalho final, nem fez exigências quando enfrentou condições que a pudessem desgastar. Para mim, sem a menor vontade de cair nos lugares-comuns das homenagens, ela é mesmo um exemplo raro.

Tão insignificantes, face a tudo o que já fez, quanto fundamentais vão aqui estas palavras. Era mesmo necessário, num espaço dedicado ao percurso que tenho feito, dizer-lhe que este mesmo perderia muito da sua graça se lhe faltasse a vibração especial da sua entrega.

Figurino do Pastor Rebordão (Rui M. Silva).
Fotografia @ Marta Carreiras

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