sexta-feira, 21 de novembro de 2008

O que se faz com o que se tem (Mãe Preta)

Fotografia @ João Barbosa (2005)

A ideia de Mãe Preta ganhou forma em Setembro de 2004, durante um workshop de dramaturgia ministrado no Mindelact 2004 (S. Vicente - Cabo Verde). Na verdade, esta era a história da avó do Ney Tavares, um dos alunos. Certa vez, abordou-me num intervalo (com um entusiasmo que nunca lhe vira nas aulas), afirmando que também escrevia peças de teatro.

Recordo-me de não me apetecer ouvi-lo, naquele exacto momento de descanso, onde uma carga horária pesada (debaixo de um intenso calor abafado) convidada qualquer segundo de descompressão a aproveitar-se na íntegra. Pedi-lhe que revelasse a sua história dentro da sala da Biblioteca Municipal mas, pelos vistos, ela não cabia ali. Contou-ma sem esperar qualquer sinal de consentimento. O que se passou a seguir foi que, quase de imediato, imergi no seu relato e no seu mundo, passando a ser automático transpor para imagens as palavras do seu discurso oral. Naquele exacto momento sabia que estava germinada uma peça de teatro. Onde e quando nascesse era uma questão oportunidade.

A narrativa de Ney era muito simples: uma mãe, durante uma crise muito intensa de seca (1947), procurava desesperadamente alimento para o filho. Conseguiu um pouco de farinha, juntou-lhe bastante água para render numa refeição mais. Com a barriga vazia, o excesso de líquido provocou um amolecimento no corpo, deixando a criança sonolenta. Nesse estado, é transportada às costas por uma mãe que não desistia de encontrar alimento. Julgando que o filho dormia, ela prosseguiu, prosseguiu, prosseguiu até se aperceber que o filho não mais acordaria…

Foi a simplicidade e a calma deste relato que me emocionou. Dito com uma tal tranquilidade (ou seria esperança?) que aquele momento fez-se inesquecível. O que é que esta história tem assim de tão diferente em relação a tantas outras mais impressionantes que naquele país acontecem? Seguramente a forma como foi contada. Ou no amor como foi transmitida. Foi isto que quis preservar, quando meses mais tarde, a partilhei através do teatro. Não é tão importante o que se tem mas o que se faz com aquilo que se tem. Assim como as coisas mais belas tendem a ser as mais simples, quando essa simplicidade é, na verdade, o resultado último de uma experiência.

O relato de Ney era suave, doce, aspirava à confiança numa vida plena e harmoniosa, embora o conteúdo pudesse, de facto, convidar a uma colagem imediata com o desgosto intrínseco de uma tragédia. Por intuição, ele não se deixou ir por aí. O acto de contar uma história, de transmiti-la era o elemento de vida, o sopro pelo qual todos os seres humanos aspiram por um mundo melhor.

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