quinta-feira, 27 de novembro de 2008

O homem mede o tempo e o tempo mede o homem

Fotografia @ Margarida Dias

O texto que escrevi para o programa de VLCD! - Do lugar onde estou já me fui embora, complementa e contextualiza opções artísticas que tenho vindo a tomar, nomeadamente no que concerne ao uso da máscara, ou seja, na questão recorrente do encontro, da relação de presença entre quem-faz-e-quem-vê...


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«Desde que as cidades começaram a acertar as horas entre si, desde que o tempo se tornou realmente mensurável, fraccionável, espartilhável em calendários, períodos e horários, o Homem tem aumentado de facto a sua produtividade, a sua riqueza e prosperidade... mas fê-lo na mesma proporção em que se tornou também mais infeliz.

Falar em tempo, hoje, significa acima de tudo compreendê-lo em velocidade, impondo-se agora uma nova ordem do mundo: o mais capaz é o mais rápido. Independentemente da qualidade, do valor intrínseco, da beleza, do afecto, o melhor é o que chega primeiro. Mas é assim também que se passa superficialmente pelas coisas (senão pela própria vida), sem aprofundamento algum, sem vivência interior, sem a essência imaterial dos objectos que suscitaram algures o nosso interesse. Pouco ou nada se vivencia – nem mesmo a relação com a experiência tida.

Anda-se tão apressado que tudo e todos os que possam atrasar essa marcha se transformam no inimigo. E, assim mesmo, nesse pressuposto, se fez toda uma Revolução Industrial, onde o ser humano se tornou ele próprio um bem que tem que circular para que esta grande engrenagem nem sequer sofra a fricção de um pensamento. Comer depressa, dormir depressa, amar depressa... transformou as pessoas em casas com janelas abertas para a rua mas sem alguém a espreitar por elas. Ruas que, afinal, mais não são que perfeitos túneis de “A a B” onde seres humanos se projectam, quais comboios rompendo, rompendo, rompendo furiosos a paisagem e por isso rasgando-a de um possível desenho onde ainda se pudesse sonhar.

Mas com o aumento da esperança de vida, nos últimos 150 anos, a questão da felicidade tornou-se presente (e muito premente). Há que ser feliz, aqui e agora, não numa vida depois da morte. Há que ser feliz, agora que por volta dos quarenta anos existe todo um tempo de vida que, do ponto de vista da reprodução da espécie, se tornou redundante.

Responder à questão do Teatro, hoje, significa assim, para o Teatro Meridional, pensar toda uma orquestração onde a relação entre "quem-faz-e-quem-vê" se revelou sempre, ao longo de quase duas décadas, a maior de todas as viagens. Aquela que vai de uma pessoa a outra e pode não ter fim. Aquela que, afinal, evoca o presente e a presença como a mais fundamental de todas as medidas e a única capaz de enfrentar, justamente, a velocidade.

E quem melhor para se projectar no tempo presente do que o Clown?

Destas premissas nasceu um espectáculo, feito do encontro de todos os seus criadores. Um espectáculo edificado e projectado dramaturgicamente no espaço contemporâneo dos ensaios e que também ele se debateu, na sua fase de criação, com as mesmíssimas questões que eram, afinal, o seu objecto. Das alegrias, descobertas, dificuldades e também tantas angústias resultou uma oportunidade de crescimento e de valorização humana inesquecível.

Como falar do tempo? Como traduzir através de acções essa sensação tão concreta e tão aguda de que já partimos do lugar onde acabámos de chegar? Como repetir emoções que, debaixo dos nossos narizes, no quotidiano, já nem damos por elas ou tornaram-se tão banais que são tidas como normais?

Como fazer Teatro mais uma vez?»

Lisboa, Novembro de 2008

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