terça-feira, 2 de dezembro de 2008

Alabad em Évora

O relato de Alabad, de e com Nuno P. Custódio, encenação de Miguel
Seabra, Teatro Meridional, no Teatro Garcia de Resende, em Évora,
Setembro de 2003.

Fotografia @ Susana Paiva

O relato de Alabad era um monólogo. Depois de ter ficado em cartaz no Teatro da Comuna, em 2002, fez no ano seguinte uma digressão pelo país todo, de norte a sul com uma pequena estada nos Açores e outra em Cabo Verde. No total foram 63 espectáculos. Metade desse percurso em adaptação a diferentes espaços e meios.
Por vezes é preciso optar, ceder, optimizar. Isso faz-nos não apenas conhecer o nosso objecto de uma forma mais ampla como nos confere também, instintivamente, outra clareza, pois temos que nos colocar na situação de pensarmos o teatro através do público. Mais coisas sobre a nossa arte se descobrem por essa via do que quando no centramos no que se passa na área de representação. É que os actores só existem, de facto, se os espectadores os validarem como tal. Quando nos concentramos demasiado com aquilo que estamos a fazer, é fácil perdermos o contacto com o "lugar de onde se vê".
Reportando-me à digressão feita pelo Teatro Meridional em 2003, sigam-se estes exemplos: Devemos projectar muitíssimo mais alto, com prejuízo para a nuance das diversas emoções, porque se vai representar numa tenda gigante, com uma multidão de pé que pode dispersar-se ou simplesmente desorganizar-se (Festival Islâmico, Aljustrel)? Falar mais lentamente e de forma mais recortada, levando em conta os diferentes níveis de intensidade sonora, por causa do eco (Convento de Cristo, Tomar)? Não cair na sugestão traiçoeira da lentidão que o calor e a humidade transmitem (Mindelo, Cabo Verde)? Representar levando em conta o público que está nas laterais e vê de perfíl o que o restante vê de frente (Guimarães e Santo André de Sines)? Fazer mais picado (sala pequena com pouco público, na Póvoa de Varzim)? Representar predominantemente à frente, por causa da luz frontal que está muito fechada (sala minúscula, na Casa da Comédia)? Alargar o espaço entre as pausas e as pontuações, fazendo tudo mais exagerado e aberto (Loulé, no Cine Teatro, amplo e frio)? E por aí em diante, umas trinta vezes mais, sempre levando em conta características diferentes (por vezes, opostas).
Esta belíssima fotografia de Susana Paiva regista aquele que para a equipa do Meridional foi o espectáculo mais feliz de todos. Estávamos bem "aquecidos", pela agenda recente da digressão, e parámos no Teatro Garcia de Resende, cuja relação espacial entre quem-faz e quem-vê é perfeita. Além disso, tratava-se de uma sala completamente cheia, com público predominantemente do Festival Percursos 2003: actores, bailarinos, cineastas, fotógrafos, programadores, escritores, etc…
A relação harmoniosa entre todos neste encontro transmitiu-me uma tal confiança que passei a verbalizar esta palavra com outra clareza: confiança significa ficarmos somente no tempo presente, sem passado e sem futuro de qualquer espécie, somente no presente, pois sabemos que o próximo segundo, quando tiver que vir, se resolverá.
Outro espectáculo nas mesmas condições se fez no dia a seguir e o resultado foi idêntico (com todas as diferenças de uma arte que nunca se repete). Um encontro inspirador. Recordo-me, por causa desta situação da confiança, que, tratando-se de um monólogo, não estava nada interessado no texto verbal falado, nem tão-pouco nas acções e nos gestos. Nos ensaios de preparação e nos aquecimentos trabalhava a componente técnica
e artística e, por isso, durante a representação elas estavam agora como que “para trás das costas”, permitindo que a concentração estivesse quase exclusivamente centrada na energia, na intensidade vibracional daquele espaço que medeia os espectadores e os actores. O resto deixava que acontecesse, que fluísse, desprendendo-me do resultado.
Há de facto um nível de concentração adicional que só o público pode conferir ao actor. Compete aos criadores e intérpretes trabalharem nesse sentido, optimizando as condições necessárias para que os espectadores se predisponham a essa entrega, àquilo que vulgarmente chamamos de "energia de presença". Mas se tal, por algum outro motivo, não acontecer, nada há realmente a fazer. Este é um jogo de constantes adaptações e contaminações. A experiência que Alabad me proporcionou ainda hoje, seis anos depois, a vou descortinando aos poucos.

De tantas adaptações a tantos públicos e a tantos espaços, esta fotografia fala, no entanto, de um espectáculo onde o encaixe foi perfeito...

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