segunda-feira, 22 de dezembro de 2008

Do Capitão da Commedia dell´Arte ao Barão de Münchhausen

Interpretando o Barão, em Münchhausen - As maravilhosas aventuras e viagens do Barão por terras e mares, na Casa da Comédia, em Lisboa, FC - Produções Teatrais (2001).
Fotografia @ Carlos Francisco

Na Commedia dell´Arte o Capitão encontrou sempre ampla ressonância na população dominante do estrangeiro que conhecia a arrogância e a prepotência dos soldados mercenários. Por este motivo, a personagem, que inicialmente na maioria dos casos representava um soldado espanhol, tornou-se também, com grande sucesso, uma figura italiana.

O Capitão foi uma das primeiras personagens a sair do mundo da Commedia. A sua última actuação foi registada no início de setecentos.

A severa ordenação da reforma militar promulgada por Frederico II pôs fim ao fenómeno um tanto depreciativo dos soldados de ventura e os vários Capitães não foram mais que um pesado fardo difícil de suportar um pouco por toda a Europa.

A máscara conheceu no palco muitos apelidos: o mais famoso foi o Capitão Spavento di Vall´Inferna, mas também célebres foram Terremoto, Spacamonti, Sangr y Fuego, Taglia Cantoni, Matamoros, Spezzaferro ou Rodomonte.

A figura barroca e espalhafatosa do Capitão era fortemente caracterizada por uma série de atributos marciais: perna propositada à frente que, ao andar, batia com estrondo no chão, peito demasiadamente arqueado, espada interminável, fato garrido e com muitos contrastes de cores, chapéu com plumas, penachos, cinto, punhais... Na verdade, o fato era uma caricatura dos uniformes militares do seu tempo. Todo o aspecto devia impressionar e a linguagem era, necessariamente, truculenta e imaginativa. O importante era que fosse o mais insólito e bizarro possível.

As origens do Capitão remontam às comédias atelanas (Attellanæ), farsas populares, paródias e sátiras políticas provenientes da região de Atella, aldeia da região de Osci, Itália, nos séculos II e III A.C. Já aí se encontram actores mascarados, personagens tipificadas e trabalho de mimo e pantomima reproduzindo cenas da vida camponesa. Uma dessas personagens, Manducus (o Ogre), é tida como o mais antigo descendente do Capitão. Depois, será necessário chegar ao teatro de Plauto e ao seu Soldado Fanfarrão (Miles Gloriosus). Pirgopolinice (o soldado fanfarrão de
Plauto) apresenta já aspectos intocáveis na caracterização final destas personagens. A assunção de um estatuto pelo discurso e uma enorme discrepância com os actos. Aliás, é este, mesmo, um dos efeitos cómicos mais proeminentes na caracterização do Capitão. Não basta dizer-se que se é isto ou aquilo. A palavra só não chega. E quanto mais houver, menos chegará. O público, para acreditar, precisa de ser testemunha ocular de actos... e é aqui que irrompe o cómico em toda a sua plenitude. Neste aspecto, o fato do Capitão mais não é que um complemento... das próprias palavras, nunca das acções (há inclusive quem, exibindo uma bela e longa espada, nunca a desembainhe). Daqui até ao final do século XVIII nasce o período áureo dos capitães, o período da Commedia dell´Arte, que os torna famosos em toda a Europa, permitindo, até, o aparecimento de muitas e muitas personagens em vários países. Alguns actores conhecem a fama com os seus capitães, como Tibério Fiorilli, em Scaramouche (Escaramuça).Só no teatro francês, entre o século XVI e XVII encontramos cinco capitães famosos, como Taille-Bras (1567), Rodomont (1618) Engoulevent, o já mencionado Scaramouche e Crispin.

Münchhausen tem, igualmente, um descendente alemão: Horribilibifibrax...

Münchhausen é claramente um Capitão. Não uma personagem da Commedia mas um herdeiro de uma tradição reconhecida em finais de setecentos por quase toda a Europa. Agora uma personagem da literatura (como em França será também o Capitão Fracasse), quando outras, Arlechhino ou Pulcinella, para citar só estes exemplos, encontram agora espaço noutras manifestações artísticas, como a ópera, o ballet ou a pintura (quando não se tornam mesmo símbolos nacionais – Pulcinella transformou-se no Punch de Inglaterra ou no Petruska da Rússia...)

Fanfarrão, assumido apreciador da beleza feminina, capaz de evocar feitos heróicos e extraordinários ao mesmo tempo que se vai assustando com a presença de um simples lobo, não deixa, por isso, de se proclamar descendente de algum herói mitológico, bíblico ou da antiguidade (no caso, David). Fala pelos cotovelos mas quanto a actos ficamos sobretudo pelos... conversados. De resto é a sorte e a providência (sempre aliadas à sua presença de espírito, claro) que lhe resolvem as mais intricadas situações, quando não se tratam de “retumbantes vitórias”!

Outro traço importante é a sua condição de mercenário. Münchhausen combate nas Guerras Turcas, ao serviço de Catarina II, da Rússia, fazendo parte de um regimento de hussardos. É um viajado viajante, um aventureiro dos confins do mundo (e dos seus arredores, como atestam aquelas viagens à Lua ou ao interior da Terra) que dá conta dos usos e costumes dos povos, da fauna e da flora e que tem sempre um extraordinário poder de se adaptar às mais diversas culturas, estados ou circunstâncias.Nunca mente. O mais que pode acontecer é haver alguém que exagere “muitíssimo” os seus actos, o que lhe é bastante prejudicial, pois pode levar as pessoas a duvidarem do resto, daquilo que ele conta. E o que é o resto?

É a mais delirante imaginação e fantasia a convidar-nos ao sonho. Contada com um tal prazer e convicção que não pode haver neste mundo quem se disponha a fazer a desfeita de não acreditar em nada. Acreditemos, pois. É também para isso que o teatro existe. Mendace Veritas!


Maio de 2001

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