quinta-feira, 11 de dezembro de 2008

Um ponto da situação

Snow, snow, snow, num dos últimos espectáculos da sua intensa
carreira. No Teatro Garcia de Resende (Évora), em meados de 2004. Da
esquerda para a direita: Rogério Bruno, Rui M. Silva e Alexandre Barata.

@ Nuno P. Custódio

Um quadrado (ou um tapete ou ainda um espaço que intensifica a compressão). Uma história tão simples que quase parece não existir, não fossem os acidentes, as tensões, os conflitos nascidos da coabitação de três criaturas num mesmo espaço/tempo. A linguagem verbal oral projectando as potencialidades sonoras e as emoções de um corpo, em detrimento das palavras (aqui substituídas por alemão, italiano e inglês macarrónicos, consoante cada personagem). Ausência de cenário e adereços, apenas um dispositivo capaz de se desdobrar em vários universos (desfiladeiros, acampamentos, clareiras, montanhas, rios...) Forte investimento no gesto e nas acções enquanto linguagem, dando primazia à visão. Um teatro de sugestão, portanto. Relação frontal com o público (sem quarta parede). Uma comicidade mais ao nível dos sentidos e das sensações, buscando sobretudo o sorriso e não tanto o riso - que pertence essencialmente à lógica e ao intelecto. Desconstrução, promovendo o teatro como forma de comunicação que não imita a vida mas transpõe-a. Por isso mesmo, um forte investimento no sentido da verosimilhança através dos elementos escassos e por vezes primários dispostos na cena. Percursos em círculo, imensos ciclos que se repetem, infinitas recorrências, e reminiscências. Um coda (um final vivo que faz uma retrospectiva supersónica de tudo o que já acontecera até ali). Poses (que coincidem com o acto de olhar para a plateia) ou, afinal, a procura de uma imobilidade que crie realmente "movimento" nos espectadores. Personagens ambíguas, contraditórias, por vezes muito básicas, por vezes intrincadamente densas. O desenvolvimento de um universo distante, esteticamente muito próprio, para promover um "ver" mais à distância. A criação, aliás, de uma "dramaturgia do ver", onde se escreve (ou se inscreve) através da observação de cada ensaio, ficando o texto (tudo o que se percepciona a partir do lugar de onde se vê) registado na repetição, como coisa cultural tida no corpo de cada um. A procura por um teatro de abrangência, que possa de uma forma muito concreta interessar a todos. O prazer de proporcionar prazer. Uma certa utopia...

Eis alguns dos princípios fundamentais da encenação de Snow, snow, snow, peça edificada no início de 2003, no Teatro das Beiras, e que foi uma das criações que mais visibilidade deu a esta companhia da Covilhã, fruto de uma itinerância de dois anos muito assinalável e com uma extraordinária recepção do público em geral.

Com esta proposta houve uma espécie de ponto da situação que projectou todo o meu trabalho futuro. Uma convergência de características e faculdades. Seguramente, a ESTE - Estação Teatral (criada um ano depois na vizinha cidade do Fundão) sustentou aqui todo seu discurso: um "teatro em urgência", popular, directo, recorrendo a técnicas tradicionais que pudesse acima de tudo implicar criativamente com um público moderno, tornando-o, através da sua imaginação e experiência, responsável efectivo por um encontro sustentado na presença.

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