sábado, 20 de dezembro de 2008

Workshop na Circolando (Porto)

6, 7 e 8 de Dezembro de 2008, das 10h00 às 18h30 (intervalo para almoço), no CACE Cultural do Porto.

O tempo era escasso e foi preciso desenhar um segundo Círculo
para que todos pudessem praticar. As acções de formação estão
a ser cada vez mais curtas e começa a ser um desafio encontrar
fórmulas para se conseguir passar os mesmos conteúdos
em me
nos tempo...
Fotografia @ Cláudia Santos

Quando se trabalha com um grupo disponível tudo avança melhor. Dito assim parece um lugar-comum, mas quero mesmo salientar o adjectivo "disponível", pois não significa, não pode significar, apenas o acto de se estar presente. Estar lá, ouvir o que se diz, participar não é o suficiente. "Disponível" no caso que quero referir, trata-se de uma vontade anterior à própria aula, uma força interior que já seguia com o corpo do actor como se fosse a sua sombra.

Se o aluno não estiver preparado, de pouco servirá dispor de tempo "suficiente". Apesar de senti-lo a escassear cada vez mais relativamente a acções idênticas no passado, a questão impõe sempre uma apropriação legítima dos conteúdos e das experiências validada pela entrega. Dito de outra forma: "a porta pode estar aberta, mas o aluno tem mesmo que entrar"...

Este foi, então, um workshop supersónico, com vinte e uma horas (sete horas por sessão) condensadas em três míseros dias. Dos treze participantes acabaram doze. Normalmente há sempre quem se julgava mais disponível...

Um dos objectivos destas aulas é a criação de um "ponto neutro"
no colectivo. Através da normalização de posturas, regras de
comunicação e o mais que se puder ao nível dos snais
exteriores, os actores vão ganhando uma maior consciência
sobre a sua individualidade, melhorando as condições
para se despersonalizarem numa personagem.
Fotografia @ Cláudia Santos

No Porto, quase todo o primeiro dia desta formação foi dedicado à contextualização artística e pedagógica da máscara na formação do actor. O enquadramento teórico é aqui uma necessidade incontornável. Perspectivámos, também, com exercícios muito iniciais, as "regras básicas" de um sistema de interpretação com máscara. E isto foi tudo o que um arranque pôde proporcionar. Já no dia seguinte, começámos o desenvolvimento do Jogo do Círculo (um exercício-ritual, ou uma espécie de pré-encenação, onde se comunica através de regras, que faz a transição para a representação propriamente dita e consequentemente para o uso de máscaras). Investimos nesse dia, igualmente, mais na evolução da técnica (no sentido de torná-la cada vez mais cultural no corpo de cada um e em colectivo). Para que se experimentasse uma abordagem à construção das personagens, ainda se "entrevistaram" nesse dia (com alguns resultados muito interessantes, refira-se) três personagens da Commedia dell´Arte (Arlequim, Capitão e Polichinelo). Foi particularmente interessante perceber quando não funcionava o jogo do actor e quando, entre este e os espectadores, todos num ápice se tornavam cúmplices. Ficamos sempre a saber muito da representação, do próprio teatro em termos teóricos, se analisarmos o que aconteceu realmente com o olhar do público, impondo desta forma a ideia de que o teatro precisa da dimensão do espectáculo para que as "boas ideias" realmente funcionem. Finalmente, no último dia, reforçámos tudo o que iniciáramos anteriormente com novos exercícios, mais específicos e localizados, expondo de uma forma mais plena toda a metodologia do trabalho com máscara.

André Braga e Maria do Céu Ribeiro. Durante três dias só abordámos
a interpretação através da máscara e quase nunca as colocámos.
Por máscara definimos assim que se trata antes de mais
de um comportamento que impõe regras e convenções
centradas unicamente na relação de interdependência entre
"os que fazem" e "os que vêem".
Fotografia @ Cláudia Santos

"Ver" e "fazer", em teatro, só existem quando se validam mutuamente
e se complementam. Por isso mesmo podemos dizer que são um só.
Fotografia @ Cláudia Santos

Na Circolando, todos tinham grandes expectativas em relação ao uso das máscaras, mas o tempo só permitiu que pudessemos trabalhar as fundações comportamentais que estas impõem. Para as parcas horas de que dispusemos, descobriu-se, no entanto, muito. Graças a um grupo que conseguiu fazer da disponibilidade não uma aparência mas uma real faculdade.


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