sábado, 3 de janeiro de 2009

De como a mente mente e é demente

Adriana Campos criou a Doutora Francelina, em Como havemos de
estar
, no Teatrão, 2008. Sempre que a cadeira do Doutor Remington,
quando puxada para trás para ele sair, tocava na sua, ela carimbava
com estrondo o tampo da sua mesa. Porquê? Porque sim!

Fotografia @ Paulo Abrantes


Neste ciclo de peças sobre a mente, o ego, a presença ausentada, a velocidade, a esquizofrenia "normal" do quotidiano, a solidão, a (in)comunicação, o (des)amor, Como havemos de estar foi mesmo uma peça sui generis. Pelo sentido metafórico que todos os elementos, das personagens, aos objectos, passando pelos figurinos até chegar aos espaços arrastavam consigo relativamente àquilo que se pode conceber como sendo o funcionamento "típico" de uma mente humana. Nessa perspectiva, o texto que escrevi para o programa deste espectáculo também contextualiza o meu percurso artístico.

Sempre me fascinaram nas peças os temas que interrogam o próprio Teatro, que o põem em discussão, em tensão com o seu próprio mundo e com a vida, de onde sai e se emancipa. Mas ainda me encanta mais conseguir que este "olhar para dentro de si" pudesse ser atraente para
o espectador em geral, partilhável, numa certa vontade acessível àquele que quer viajar com uma boa história, seja ela mais linear ou mais abstracta. Todo o universo dramatúrgico de Como havemos de estar, cabendo em várias áreas, disciplinas, ciências, aborda de uma forma metafórica a questão crucial do aqui-e-agora. Daí, julgo, o interesse do texto que se segue.

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Como havemos de estar
Ou de como a mente mente e é demente

Felizmente, não somos a voz que incessantemente tagarela dentro de nós. Não somos essa tremenda aflição. Tão-pouco a percepção de que esse “mim”, “meu/minha” ou “me” que pronunciamos infinitas vezes em cada dia nos representa de forma plena. Felizmente sabemos que temos um ego, uma ferramenta necessária para que possamos viver em sociedade – quanto mais não seja porque precisamos de comunicar – mas também um conceito enganador, se deixarmos que a nossa existência, a nossa essência, se iluda e se perca com ele.

Definitivamente, não somos essa voz que ecoa compulsivamente na mente, mas a consciência disso – aquele que a observa. Nem mesmo sequer a mente que nos habita, mas a sua percepção. Aquela que nos permite perceber que, graças ao disfarce de um cérebro traiçoeiro, com uma mente astuta, grande parte daquilo que julgamos que conhecemos não é bem o que parece.

Na verdade, o estado de espírito “normal” da maior parte dos seres humanos contém uma forte componente do que podemos chamar de disfunção ou até loucura. A principal característica da sua condição manifesta-se mais cedo ou mais tarde através do sofrimento, da insatisfação ou simplesmente da tristeza. E se não restam dúvidas, igualmente, de que a mente é extremamente inteligente, falamos ao longo da História de uma inteligência manchada de loucura. A mesma que nos faz constatar que os seres humanos já sofreram mais às mãos de outros seres humanos do que devido a desastres naturais. Reconhecermos a nossa própria insanidade é, obviamente, o primeiro passo a dar para alcançar a sanidade mental, o início de todo um novo processo de existência.

É neste contexto que nasce esta nova criação do Teatrão. Da necessidade de reflectir sobre o viver-se hoje, e do sentido de se ser criador aqui e agora. Actualmente. Num tempo onde cada vez menos há tempo presente quando o Teatro é, na verdade, a arte da presença e do presente. Numa sociedade tão consumista, que só pode trabalhar o ego como o ponto de chegada de um indivíduo e a sua mente no espaço privilegiado da presença, como podemos pensar em representar através do Teatro? Com quem, aliás, podemos criá-lo ou senti-lo? Onde e quando? Que necessidade, que premência de facto existirá hoje na sua prática?

Foi no presente, explorando e descobrindo em cada dia, que se fez este espectáculo. Nascido da comunicação actual de cada um, sem premissas anteriores ao espaço dos ensaios onde, ali mesmo, se “ia vendo” e edificando toda uma dramaturgia. Assim nasceram ideias, sentidos, percepções que fundamentaram a identidade de uma representação inteira; e assim mesmo se montou um complexo jogo de improvisações sustentado em regras. Premissas muito concretas que, afinal, permitiram constituir-se como principal elo de comunicação entre os actores no andamento das próprias improvisações. É aqui que se vão formando as personagens, que estas desenham situações, acções, acontecimentos. É aqui que tudo se sedimenta – e o que dantes era improvisação agora já é partitura de uma peça.

É aqui que, finalmente, fazendo jus a todos os desassossegos de um “como havemos de estar” se procurou criar uma plataforma que permitisse um encontro: a possibilidade de “quem faz” e “quem vê” se poderem encontrar algum dia, alguma hora, num mesmo local, mas num tempo outro, mais presente e actual que o agora da sua comparência: no temp(l)o do Teatro.


Coimbra, Abril 2008

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