sexta-feira, 2 de janeiro de 2009

O Papa e a intuição

O Papa Inocêncio III, interpretado por Filipe Crawford. Casa da Comédia, 2003.
Fotografia @ Carlos Francisco (?)

A resposta sem ter feito a pergunta. O resultado sem a equação. Um salto. Assim é a intuição. Inteligência para lá do intelecto. Faculdade não-exclusiva deste ou daquele, precisa que a experiência teórica se funda tranquilamente com a da prática e que se confie que todo um processo quase às cegas nos leve para mais longe ainda.

Nesta noite, Filipe Crawford trabalhava pela primeira vez a cena do Papa. Lia o texto enquanto experimentava criar uma personagem. Não fazia bem nem uma coisa nem outra. Nunca gostei de ver actores ensaiando dentro da cena com papéis na mão. Raramente se pode ver qualquer coisa a partir daí, a não ser projectar sugestões oriundas da partitura escrita. E se ainda é muito cedo para se ver alguma coisa, então não há necessidade de se ocupar, justamente, o espaço para onde se vê. Mesmo com o intuito de experimentar sem compromisso, fico sempre com a sensação de tempo perdido.

E assim estava realmente a ser. O ensaio arrastava-se. A proposta para o Papa Inocêncio era inexistente. Tempo aborrecido. O actor enganava-se cada vez mais na leitura. Nem sequer virtualmente se conseguia projectar uma ideia.

Até que, de repente, de uma forma instantânea, como um clarão, sem que tal alguma vez tivesse existido conscientemente no espírito, sem mesmo medir o impacto de tal empresa, arranjei um pouco de fita-cola e ajudei o Filipe a colar o texto na sua testa. Ainda vejo o seu rosto perplexo com tal sugestão.

Depois afastei-me e voltei a sentar-me. Pedi-lhe que continuasse. Sem descolar o papel, afastando-o o suficiente para que pudesse descortinar algum texto. Mas só isso. Nada de batota. Só nessa condição o Papa podia dizer algo… Caso contrário, teria que ficar quieto, "olhando" para o público. Num misto de leitura e texto improvisado, com o canto inferior de uma folha A4 a levantar-se e um actor a inclinar o pescoço e a entortar os olhos para ver se via melhor, os minutos a seguir foram feitos no chão, rindo às gargalhadas.


Fez-se então um Papa que lia em voz alta tudo o que falava, como se estivesse a ler uma encíclica. O discurso mais trivial, mais quotidiano era martelado e projectado com solenidade, como se proferido para uma multidão na Praça de São Pedro. O hilariante é que já via muito mal, já estava muito velho. E de tão habituado a ler tudo o que dizia, já nem compreendia a sintaxe da sua oração. Não fechava as frases, não entoava como se fosse pergunta, acentuava mal algumas palavras (que repetia como uma criança diante de um ditado na escola). Além disso, com o decorrer do tempo, os esforços que enveredava para ver melhor faziam com que, de uma forma quase imperceptível, o papel se fosse aproximando da cabeça (ou seria esta do papel?)… até colar-se na testa.

Recordo-me deste ensaio como se fosse ontem.


Este era o grande momento de O Santo Jogral Francisco. Infalivelmente funcionava com o público, corresse melhor ou pior cada espectáculo. Por vezes, o actor tinha que ficar quieto para que a representação pudesse avançar. É que, em determinado ponto, mexendo um dedo que fosse, a sala podia rebentar.

A intuição está mesmo num carril diferente. Não cabe ali o preconceito, o maquinal, o previsível, o imediato e tão-pouco a premissa. É algo que não se compreende, apreende-se. Está no domínio do incognoscível. É a alma quando se torna espontânea. E é igualmente o melhor caminho para se abordar o novo, fugindo das estafadas respostas antigas (que o intelecto insiste em dar diante do incerto e do desconhecido).

E assim, também aquele que constrói máscaras tem que aceitar que uma das suas “criações” mais felizes tratou-se de uma mísera folha A4 colada na testa de um actor.


Longe da ideia dramatúrgica tida para este Papa, fora de lógicas analíticas, esquemas intrincadamente mentais ou outros processos que só podem servir a representação uma vez testados (não bastando que as boas ideias fiquem, portanto, somente na região do intelecto), esta cena funcionava de uma forma imediata e sem esforço porque foi tocada pela eloquência da intuição.


Assim, nós, na tagarelice e histeria das cidades modernas, soubéssemos mais vezes como desbloquear os canais que nos projectam nesta dimensão e a própria vida se tinha, também mais, como uma preciosa companheira.
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